Segunda-feira, 5 de Maio de 2014

OS GAIBÉUS E OS BARRÕES

 

Por isso era necessário recorrer a mão-de-obra disponível noutras províncias, que não fosse onerosa e que estivesse disposta ao calvário de algumas semanas fora das suas terras. Não era fácil a vida destes ranchos, constituídos sobretudo por mulheres, moças ainda, alguns homens que se juntavam, e a alguma distância o capataz, entre o despotismo e um certo espírito patriarcal. Viviam em pavilhões desmedidos, os “quartéis”, onde se acoitavam enroscados às velhas mantas trazidas de longe e deitadas sobre um chão cuja dureza procuravam matar com algum feno. O frio servia para unir os corpos uns aos outros, não importava que fosse homem ou mulher, ou que tivessem ou não alguma coisa entre si. Num canto desses casarões saía o calor e o fumo de uma lareira, que escaldava os caldeirões e as panelas de ferro negro e humanizava um pouco o ambiente húmido e gelado das noites. Pouco durava este desconforto amenizado nestas “casas da malta” cedidas pelos donos dos hectares e dos milhares de oliveiras que a seguir deviam percorrer ramo a ramo, varejando-os ou ripando-os à mão. Com a madrugada, antes ainda de o sol o fazer, era preciso acordar e ir ganhar a jorna que se paga como a uma purga. Pelo caminho, que ainda pode durar, soltam-se quadras para acordar a disposição e atenuar a sonolência.

“Oliveiras, oliveiras/ Ao longe são olivais/ Quem dá confiança a homens/ Sempre fica dando ais”.

Cantavam, quase sempre só elas, os homens eram mais parcos nas palavras, ouviam ou ouviam-nas sempre, mas nada lhes dizia:

“Corri a terra à volta/ Oliveiras e olivais/ Para ver se te esquecia/ Cada vez me lembras mais”.

Chegados aos olivais, estendem-se os panais onde a azeitona há-de cair, varejam-se as ramadas, sobem-se e descem-se as escadas. As jovens no chão vão apanhando a chuva da azeitona caída das árvores e vão enchendo os sacos e os cestos com que irão fazer as muitas “fangas” ou “sutas”, que no final mediriam a eficácia do seu trabalho, e que seriam puxados por bois para o lagar e transformarem-se no ouro do azeite. Néctar precioso, que até devoções mágicas conseguiu e, para quem acredita, resulta mesmo:

“Azeite dourado/ Nasceste sem ser semeado/ A virtude que Deus te deu/ Tira o mal que a este deu”. (Segue-se o Pai Nosso e a Ave-Maria.)

Ao meio dia e no fim da etapa, come-se de uma bacia comum o que a disposição e a humanidade do patrão-lavrador permitem. Decerto uns feijões e couves, almeirão, bacalhau que se pôs a assar, o imprescindível toucinho ou umas sardinhas. Com bondade já, o chouriço, umas badanas rijas. Os ranchos traziam sempre o harmónio, que tanto designava o instrumento como o homem que o tocava. Era indispensável na animação da comunidade, e muitas vezes atraiam os rapazes das aldeias vizinhas que procuravam testar a disponibilidade das “barroas”, sobretudo as mais simpáticas e atraentes, mesmo que tivessem de conseguir o consentimento do bailarico com uma garrafa de aguardente dada ao capataz. Era o consolo possível das tarefas árduas e das noites de desconforto. No final, tudo era pago numa jorna minguada, mas mesmo assim agradecida antes de partirem para as Beiras, a Estremadura, o Alentejo ou mais longe.

“Acabámos, acabámos/ Mas não de morrer agora/ Acabámos a azeitona/ Amanhã vamos embora”.

O olival é também, no Ribatejo, um dos sinais da nossa indefinição, de não se saber para onde se vai, ou, pior ainda, de se ir para onde vai o vento. Na apanha, os espargais, a charneca ou o bairro da província enchiam-se de uma vida simples mas plena. Havia unidades e marcas prestigiadas como a Fábrica Torrejana de Azeites, a Oliveira da Serra. Hoje encontramos sinais de que a galega, cordovil ou verdeal, e o azeite delas, voltaram ao coração dos ribatejanos, mas entretanto esvaziaram-se as aldeias de quem se lhes pudesse dedicar.

 

publicado por luzdequeijas às 15:48
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