Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

COLETE DE FORÇAS

                        24 Fevereiro 2010 - 00h30

Cozido à portuguesa

Saudades do escudo

Num anúncio a um supermercado, que passa na televisão portuguesa, as saudades do "escudo" são intensas, tal como as saudades dos baixos preços. Uma coisa e outra estão associadas, e o seu oposto também. Para muitos portugueses, é evidente que o euro trouxe uma subida grande dos preços. As coisas, sinto eu, você e toda a gente, ficaram mais caras.
 

É claro que os salários também subiram, e que quando vamos viajar é bom termos uma moeda forte para gastar mais em países pobres, mas tudo somado é misto o resultado do euro. Se a prosperidade era a terra prometida, não lá chegámos. Se a disciplina financeira era um dos efeitos certos e seguros, o que tivemos foi o oposto. E se olharmos para os números vemos que Portugal teve, nesta década do euro, a mais baixa taxa de crescimento económico de sempre. Nunca, nos últimos 50 anos, crescemos tão pouco e tão mal. Portanto, o que pensar? Como não ter nostalgia do escudo, tal e qual o anúncio? Aliás, não somos os únicos. Numa sondagem recente, 70 por cento dos franceses dizem ter saudades do franco, e até os alemães consideram o euro um erro e não querem pagar do seu bolso os disparates e as irresponsabilidades financeiras dos gregos.

Dez anos depois do início desta aventura monetária colectiva, era tempo de parar para pensar em como se pode melhorar o sistema. Sem mobilidade de pessoas entre países, com sistemas legais e fiscais diferentes, com línguas diferentes, os países do euro não são os Estados Unidos da América, onde se muda do Kansas para a Florida num abrir e fechar de olhos. A moeda única, e as suas draconianas regras, tornaram a Europa numa amálgama de sarilhos e num cemitério de governos. Está na altura de se perceber que o desenho do sistema foi mal feito e que ainda vamos a tempo de o corrigir. Sair do euro é uma calamidade, mas ficar tudo como está também é uma calamidade.

É fácil culpar os governos gregos e até portugueses pelas suas irresponsabilidades fiscais, mas o que se pode dizer dos espanhóis, que não foram irresponsáveis e mesmo assim estão de rastos, sem capacidade para reagir à crise que os fustiga? O drama do euro é esse: penaliza os bons e os maus da mesma forma, mas a nenhuns garante uma porta de saída para as crises. Sem um poder político central que sirva como garantia, e sem regras mais flexíveis, o euro continuará a ser um colete de forças para todos, pobres ou ricos. Não admira que, Europa fora, cresçam as nostalgias do passado.

 

Domingos Amaral, Director da 'GQ'

publicado por luzdequeijas às 11:46
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