Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013

AS PRIVATIZAÇÕES

Cavaco, que Soares dizia “desconhecer”, representou o primeiro dirigente da democracia portuguesa que chegava ao poder fora da resistência contra Salazar e do PREC, e com uma formação dominantemente económica, em vez de jurídica .

A maioria absoluta de Cavaco Silva, uma verdadeira subversão de um sistema eleitoral construído para obrigar a governos de coligação, abrindo caminho a um ciclo de governabilidade sem passado até então, e sem futuro até 2005 (19 de Julho de 1987).

Procedeu-se à desregulamentação da economia e fez-se a privatização do espaço televisivo e da comunicação social escrita do estado. Criação da SIC e da TVI.

Fez-se a Revisão Económica da Constituição, permitindo finalmente a existência de uma plena economia de mercado, e as privatizações. O PS que tinha bloqueado mudanças na parte económica da Constituição, finalmente cedeu ao PSD (1989).

Tivemos a primeira Presidência portuguesa da UE. Nunca até então a alta administração pública portuguesa tinha conhecido uma prova tão dura.

A Expo, a realização urbana de grande dimensão mudando a face oriental de Lisboa e levando ao clímax o ciclo de grandes obras dos anos do “cavaquismo” (1998).

Adesão ao euro, principal manifestação da decisão estratégica de manter Portugal no chamado “pelotão da frente”, ou seja, no grupo mais avançado da UE, abrindo caminho à questão do défice, suscitada pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento (1 de Janeiro de 1999).

Percebe-se que Portugal vai recuperando o seu prestigio junto das outras nações e que a integração europeia vai na senda daquilo que, os demais parceiros da UE fizeram anteriormente. Liberalização da economia e entrega à iniciativa privada do seu desenvolvimento.

Ao contrário de todo o esforço dos partidos e forças de esquerda para seguirem os passos das economias socialistas/comunistas ( que não tardariam a desaparecer repentinamente do mundo) a nossa evolução foi sendo no caminho das democracias europeias.

Foi neste sentido que as empresas anteriormente nacionalizadas foram quase na sua totalidade devolvidas à iniciativa privada.

Em todo este problema de saber quem detém a posse das empresas, há um outro que não pode ser esquecido por dizer respeito aos seus trabalhadores. Eles são, foram e continuarão a ser o maior capital dessas mesmas empresas e do país, mas também aqui, há uma história nas nacionalizações vs. privatizações. Trata-se da abordagem ao problema da educação, a fazer noutra altura.

Aquando das nacionalizações as empresas tinham um passado e naturalmente que, aparte algumas injustiças que sempre há, os seus técnicos seriam os melhores e os seus quadros foram também, naturalmente, aqueles que na sua actividade diária mostraram ter o perfil adequado a esses desempenhos.

No acto das nacionalizações, que foram actos revolucionários, a primeira acção era, regra geral, o saneamento selvagem de toda a estrutura de comando ou até técnica. Muita gente de lágrimas nos olhos, viu ser-lhes retirado o trabalho e os seus direitos adquiridos. Normalmente eram substituídos por outros. Algumas vezes de fora, mas nunca por empenho ou qualidades,  ascenderiam a posições de relevo na estrutura dessas empresas. A qualidade pedida era que fossem de esquerda, de preferência activistas políticos.

Nesta situação as empresas foram-se deteriorando, adoecendo até estenderem as mãos aos cofres do Estado. Os salários começaram a estar em perigo em cada mês que passava, e não foram poucos os casos de encerramento.

Do lado oposto, nas privatizações, os novos donos foram muitas vezes os antigos donos mas, mesmo sendo outros, o problema era o mesmo. As indemnizações pelas nacionalizações, quando as houve, foram ridículas, mas no acto das privatizações, apareceu na sua frente um Estado sem recursos, que tentava encaixar o máximo de dinheiro para alcançar o equilíbrio das contas públicas.

Os pretendentes à posse das empresas conheciam-nas como ninguém e conheciam muito bem, igualmente, os seus empregados. Os anos haviam decorrido e os tais antigos colaboradores, saneados, já não eram jovens. Salvo poucos casos, os candidatos às empresas a privatizar, bons conhecedores de actos de gestão, exigiam antes do acto se consolidar, que as empresas tivessem uma média etária, dentro de valores padrão recomendados.

Daqui saírem às centenas, ou aos milhares de trabalhadores, para a tão famosa pré – reforma. Naturalmente defraudados pelas circunstâncias da vida, apareceram sentados nos bancos do jardim homens com cinquenta, ou até menos, anos de idade! Gente boa, leal e competente ! Eram as vitimas da mudança.

O afastamento forçado, naturalmente, não lhes tinha permitido uma actualização constante, mas sim aumentado a sua desmotivação e, iriam sair, com muitos sonhos por realizar, grande frustração humana e agravando os cofres da segurança social . Por outro lado, as empresas ficariam com menores encargos salariais, com uma média etária mais baixa, mas com um capital de experiência muito inferior.

Os outros , os comissários políticos, esses também saíam, mas o "sistema" arranjava-lhes outra colocação, quase sempre ao abrigo dos cofres do Estado. Afinal eram políticos.
publicado por luzdequeijas às 18:56
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