Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013

UM SANSÃO CASAMENTEIRO

Suzana Faro e Joel Cleto (texto)

Em Fevereiro de todos os anos a cena repete-se. A pretexto das festividades católicas a S. Brás milhares de romeiros deslocam-se a um monte de Santa Cruz do Bispo para, entre festejos pagãos, pedirem a ajuda do “Homem da Maça” na busca do parceiro/a que lhes vem escapando. Para isso oferecem flores ao “santo” e despejam-lhe vinho na cabeça...

 

Há muito tempo – tanto que já não se sabe muito bem há quanto – um tenebroso leão assolava aquela que é hoje a freguesia de Santa Cruz do Bispo. Responsável por uma longa série de mortes, a fera mergulhara a população num profundo temor, tanto mais que demonstrava possuir grandes dotes de agilidade, força e inteligência. Com efeito, culpado pela morte de musculosos jovens, o leão soubera também escapar a todas as batidas que haviam sido organizadas para o capturar.

Mas a sua sorte (ou azar) estava traçada. E certo dia, quando um jovem agricultor regressava a casa depois de, nas margens do Leça, ter estado a maçar o linho, o temível leão surgiu-lhe  ao caminho. Rapidamente envolvido numa luta que se revelaria mortal para ambos, o jovem, invocando o auxílio de um santo (S. Brás?), e como que imitando a bíblica figura de Sansão, consegue despedaçar a cabeça do leão, socorrendo-se para tal da maça – o pesado bastão de madeira que utilizara pouco antes, no trabalho do linho.

Profundamente agradecido pela façanha do mártir, o povo do local decide erigir uma estátua em pedra representando a fera e o herói que a subjugara, empunhando este numa das suas mãos a imprescindível e famosa maça que lhe deu a notoriedade e o imortalizou.

É esta, em traços gerais, a lenda do “Homem da Maça” que explica o aparecimento no alto do Monte S. Brás, na matosinhense freguesia de Santa Cruz do Bispo, de uma enigmática estátua granítica de um guerreiro decepado, associado à representação de um animal onde, só com muita boa vontade, conseguiremos descortinar um feroz leão. Na sua “Viagem a Portugal” José Saramago não resiste mesmo em classificá-lo como “um cachorrinho a pedir que lhe cocem a barriga”. Algum exagero no nosso Nobel, perfeitamente desculpável para quem sobe o Monte na expectativa de deparar com uma terrível criatura felina devoradora de homens.

Mas o “Homem da Maça” nem sempre esteve no topo do Monte S. Brás. Embora se desconheça a sua origem e a atribuição cronológica seja igualmente polémica (a maior parte dos estudiosos divide-se entre datá-la do período romano ou do renascimento), se nos socorrermos dos registos mais antigos que possuímos com referências à estátua (todos já do século XIX), facilmente nos apercebemos que esta permaneceu a maior parte do seu tempo na base da elevação, entre as capelas de S. Brás e Nª Sª do Livramento e a de S. Sebastião. É aqui que Pinho Leal, autor de “Portugal Antigo e Moderno” publicado em 1874, a observa, possuindo, ainda nessa época, pelo menos a acreditar neste autor, a mão que empunhava a maça. Por volta de 1880, na sequência do restauro então mandado efectuar pela Viscondessa de Santa Cruz na capela de S. Brás, o “Homem da Maça” é implantado num local muito mais próximo deste templo. Por essa altura estava já desprovido de ambas as mãos. Em 1935, por fim, é colocado no ponto mais alto do Monte. Tratou-se, no entanto, de um verdadeiro “chuto para cima”. Com efeito a sua elevada e aparente nobre localização, desde a qual se desfruta de ampla panorâmica, mais do que uma valorização da estátua terá sido uma tentativa, por parte das autoridades eclesiásticas, de a “esconder” ou, no mínimo, de evitar a sacrílega convivência e concorrência que esta “imagem” possuía com a capela de S. Brás. De resto, ainda hoje muita gente confunde o “Homem da Maça” com o santo, designando o primeiro como S. Brás.

Na base da confusão (ou será pretexto?) entre o sagrado e o profano, ou seja, entre S. Brás e o “Homem da Maça”, está a crença nas virtudes mágicas e casamenteiras desta estátua em pedra. O que, aliás, não é nenhuma novidade. A veneração idolátrica de pedras –geralmente devida a características que lhes são atribuídas como propiciatórias de fecundidade e amor – é ainda muito comum no nosso país, embora geralmente ande associada a menires e outros monumentos pré-históricos. De resto, há autores que defendem a possibilidade da representação do musculoso e hercúleo “Homem da Maça” resultar de uma antropomorfização pétrea de um remoto e pagão culto litolátrico pré-existente no local. Mas, afinal, como funcionam as propriedades casamenteiras do nosso “Homem da Maça”?

Embora ao longo do ano se multipliquem as velas acesas junto às pernas do “santo”, é, segundo a tradição, no dia da Festa ao S. Brás, no início de Fevereiro, que o “casamenteiro” se encontra mais receptivo aos pedidos dos seus “devotos”. Para isso estes têm, contudo, que – num verdadeiro ritual pagão e panteísta – lhe deixar curiosas oferendas. As raparigas e mulheres desejosas de noivos devem abraçar a estátua e adorná-la com colares de flores (o que nem é difícil nas últimas décadas, uma vez que o monte foi invadido pelas mimosas que, exactamente nesta época do ano, o cobrem de flores amarelas). Quantos aos homens, o ritual exige que se despeje vinho (embora recentemente a cerveja se venha impondo) sobre a cabeça do “santo”. Depois... Bom, é esperar até à festa do ano seguinte. E, se nada acontecer, o “Homem da Maça” lá estará uma vez mais para atender o pedido ou – facto igualmente curioso deste “santo casamenteiro” – para sofrer as consequências de não ter respondido às solicitações. É que o “Homem da Maça” permite que, como represália, pelo não cumprimento da sua parte, o (ex) devoto lhe parta sobre a cabeça a malga que, um ano antes, lhe havia vertido o vinho. Actualmente os cacos cerâmicos foram substituídos pelos fragmentos de vidros das garrafas assim despedaçadas. Prova de que, apesar de hercúleo e matador de leões, o “Homem da Maça” não é suficientemente forte para enfrentar um coração decepcionado...

publicado por luzdequeijas às 18:53
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