Domingo, 15 de Janeiro de 2012

A QUINTA DA CARDIGA

A sua história

Esta Quinta é bem representativa da nacionalidade portuguesa, na medida que já existia quando se deu a independência de Portugal. Na Quinta da Cardiga, a poucos quilómetros da cidade de Tomar, em Portugal, encontrava-se um pequeno reduto templário. Em 1169, o primeiro rei português, D. Afonso Henriques doou esta quinta aos Templários, para que estes ali erigissem um castelo e eles, assim o fizeram. Sucederam-se vinte e três Mestres na poderosa Ordem que ia somando terras e bens, na região de Soure e Pombal, que fora seu anterior território. Também na região de Castelo Branco e Idanha, até ao Fundão e nesta região de Tomar, com limite a sul, na Quinta da Cardiga e no Castelo de Almourol – ao todo perto de 3700 quilómetros quadrados de domínio

Portal Gótico - Palácio da Quinta da Cardiga

A Quinta da Cardiga, onde se encontra edificado o dito castelo do século XII (data da fundação da Nacionalidade Portuguesa) e que posteriormente foi convento dos monges da Ordem de Cristo, é o local onde, á margem da corrente do Rio Tejo, o visitante poderá regressar aos primórdios dos seus antepassados.

 

Extinta a Ordem dos Templários, o seu domínio passou para os Freires de Cristo, sendo sucessivamente doado a várias ordens até ao século XIX quando foi comprada por diversos particulares. A Quinta da Cardiga foi uma das mais notáveis propriedades do País.

 

A Torre de Menagem

 

Tendo pertencido aos frades do Convento de Cristo tem ainda hoje como símbolo da casa a Cruz de Cristo. O conjunto arquitectónico é interessante pela mistura de estilos, a que não falta uma torre e um portal manuelino. A Cardiga, com a sua sobranceira Torre de Menagem, ainda estoicamente de sentinela, é hoje uma das magníficas quintas com imponente solar como muitas outras do concelho, no reinado de D. Manuel I.

Mais tarde, tornou-se uma quinta modelo, situada no Concelho da Golegã, com casas de habitação, jardim, horta, capela, cavalariças, cocheiras, casas para criados, albergarias, lagar, oficinas e muitas outras dependências e actividades.

Na abordagem desta Quinta vai procurar dar-se uma ideia clara do que foi a Cardiga durante e após o domínio que sobre ela exerceram as duas das maiores Ordens Religioso-Militares que existiram no nosso país: os Templários e a Ordem de Cristo.

A primeira aquando da reconquista Cristã e a segunda aquando dos Descobrimentos.

Porém, não deixará também de ser abordado o seu percurso até aos dias de hoje.

A Quinta da Cardiga, juntamente com o castelo de Ozêzere, a torre da Atalaia e o Castelo de Almourol eram postos de vigia da milícia do Templo.

Tal importância tinha a Quinta da Cardiga que em 1550, D. João III autorizou o seu irmão a proceder à mudança do percurso do rio Tejo, fazendo-o passar pela Cardiga, junto do seu palácio. Em 1580, Filipe II, vindo das Cortes de Tomar a caminho de Lisboa, descansa na Cardiga.

A sua capela oferece-nos um admirável retábulo de pedra figurando a Senhora da Misericórdia com o seu manto de pura feição renascentista. O majestoso palacete, ladeado por elegantes torreões circulares, rematados por cúpulas, guarda no seu interior um dos três núcleos importantes de pintura primitiva portuguesa, existentes no distrito de Santarém.

 

 

Aliás, todo o espólio do recheio do palácio da Cardiga, constitui uma grande contribuição para o estudo das artes decorativas.

Esta quinta possui ainda ricos painéis de azulejos. Situada junto ao Tejo, preserva elementos quinhentistas (portal manuelino) e azulejos seiscentistas e setecentistas.  

Possui uma torre ameada envolvida por antigas construções, designadamente claustros, capela, celeiro e pequena colunata rematada por cúpula semiesférica. Esta Quinta tinha um importante porto fluvial, cujo tráfego fazia parte do sistema de comunicações e transporte de mercadorias entre o interior do Ribatejo e Lisboa.

A Cardiga acaba por ficar ligada, historicamente, aos Descobrimentos Portugueses através de grandes Comendadores da Cardiga.

- 1416- Frei Gonçalo Velho é Comendador da Cardiga.

- 1460- Frei Gonçalo Velho é investido no cargo de primeiro capitão das ilhas de Santa Maria e de São Miguel.

 - 1500- Descoberta do Brasil por Pedro Alvares Cabral.

          Afonso Furtado de Mendonça é Comendador da Cardiga.

 

- 1520-(cerca de) Nuno Furtado de Mendonça,  que era cunhado de Bartolomeu Perestrelo, sucede a seu pai no cargo de Comendador da Cardiga e a sua mulher D. Isabel de Castro, era sobrinha do afamado herói da Índia, Afonso de Albuquerque.

 

 

A Natureza Pura

 

Os estudiosos normalmente preocupam-se em analisar a acção e influências que o homem exerce sobre o meio em que vive. Concordo e reconheço a importância desse conhecimento. Todavia a análise e o estudo do inverso não será menos importante, antes pelo contrário. A influência do meio ambiente sobre o Homem é decisiva na formação do seu carácter e da sua personalidade, nomeadamente no período da infância e adolescência. Depois fica.

O que se passa nos grandes centros urbanos é certamente diferente daquilo que se passa na vivência diária de uma quinta. Nesta, não existem factores, como nas cidades, que desliguem ou afastem as pessoas da forte influência da natureza.

 

 

Nas grandes cidades, talvez que sejam mais determinantes outros coisas como, clubes desportivos, associações culturais e o próprio ambiente familiar, onde as pessoas são obrigadas a recorrer, pois a rua é só de passagem.

O que quero mesmo realçar tem a ver com a vivência das pessoa que nasceram e cresceram numa quinta muito especial como a Cardiga, com uma história riquíssima. A rua aqui não é passagem é o espaço de liberdade. A História que se lê nas centenárias pedras do castelo é o orgulho que nos vai perseguir a vida toda. A natureza é o amigo, mas também o desafio e a aventura. O espaço mais amplo é a transparência porque nele tudo é claro, mesmo quando chega o escuro da noite. 

 

O Tejo moldava a Natureza

 

A grande paixão na quinta era em primeiro lugar o rio Tejo. Havia nele fascínio e mistério, que a todos desafiava.

O Tejo era contido todo o ano por extensas margens de salgueiros e canaviais, chamadas de "marachas", com excepção das grandes cheias, hoje quase inexistentes, pela grande capacidade de acumulação de água das barragens construídas nos últimos cinquenta anos.

De resto, tudo no dia-a-dia na Quinta representava um desafio. Desafio que era preciso vencer sozinho,  e que se chama natureza. Ela é amiga, mas lança desafios para nos ajudar a preparar a nossa própria defesa.      

O porto fluvial estava equipado com batelões, barcos a motor e fragatas.

No inverno com as grandes e medonhas cheias todas as embarcações eram recolhidas no leito manso de uma ribeira.

As águas do Tejo quando estavam baixas, no verão, deixavam aparecer belos areais. O sítio onde a ribeira desaguava no rio, era o mais belo e apetecido. Havia relva no chão e muitas amoreiras com óptimas amoras e sombras para descansar. No meio deste espaço frondoso um frondoso chorão. Este lugar era conhecido pela «beira do Tejo» e servia para os banhistas e campistas descansarem e conviverem. Era a praia possível para muitas famílias dos arredores, nesta zona interior.

Naquele tempo a água que corria neste rio era completamente límpida e com muito peixe.                 

As primeiras incursões até ao leito do Tejo ocorriam com a chegada dos dias quentes e eram de jovens, normalmente estudantes, em grupos à procura da frescura do rio. Vinham ver como estavam as coisas, mas só mais tarde se decidiam pela entrada na água. 

A roupa era trocada no meio dos canaviais e aí guardada sem receio. Começavam deste modo os mergulhos no Tejo. O sítio junto do palácio era mais profundo e tinha a torrente mais forte. Era aí, no pego, que os mais audazes mergulhavam. Os outros procuravam as águas mais baixas. Apesar disso todos os anos o Tejo fazia as suas vítimas entre os jovens menos avisados ou afortunados. Estes acontecimentos, onde toda a gente se conhece, eram profundamente sentidos. O luto era para todos sem excepção. Logo que o corpo era encontrado traziam-no para a margem onde ficava a aguardar os trâmites legais. Por alguns dias o rio era motivo de profundo respeito e não havia banhos para ninguém. Curiosamente, estes acidentes ocorriam quase sempre no entusiasmo dos primeiros mergulhos.

Nas noites cálidas de verão e depois do jantar, as famílias desciam até à “ beira Tejo”. Sabia bem apanhar o fresco da noite, que vinha do rio, e os mais faladores ajudavam a passar a noite. Numa dessas noites ocorreu um fenómeno que marcou quem o presenciou:

Por cima das cabeças das pessoas, a alguns metros de distância, passou uma grande bola de fogo! A cauda era muito comprida! Desviou para a esquerda e desapareceu no meio de um choupal. No dia seguinte procuraram-se vestígios daquele grande objecto luminoso mas sem qualquer êxito.

 

 

 

 

Em Pleno Esplendor

 

 

Naquele paraíso a magia era constante nas quatro estações do ano! No inverno essa magia tinha o acento tónico no medonho. A natureza engrossava a voz e punha o semblante fortemente carregado. O volume das águas do Tejo aumentava de forma assustadora, em dois ou três dias, por força das primeiras chuvadas, mais persistentes.

A torrente tornava-se forte e impetuosa e a água ganhava uma cor barrenta! Troncos de árvore eram vistos a descer o rio ao ritmo veloz da torrente. Por todo o lado as águas das chuvas descobriam atalhos e mais logo, todas desaguavam no rio, vindas de longe. De tanta água receber o caudal transbordava as margens que ladeavam o leito do rio. Nem os enormes salgueiros e a sua densa ramagem a podiam suster. Era impressionante ver a cavalgada das águas sempre em busca de cada vez mais espaço. A vida animal, sempre desconfiada, apercebia-se da avalanche e refugiava-se como podia, mais longe ou mais alto!

Rapidamente a paisagem verdejante desaparecia e ficava submersa por um extenso mar que galga muros, estradas, pomares, colinas e toda a planície a perder de vista!

Do alto do castelo a nossa vista só alcançava água. As noites caíam pouco depois das cinco e eram longas, muito longas e medonhas. O silvo do vento forte acompanhado do barulho da intensa chuva a cair, compunham uma sinfonia para a noite toda. A seguir á chuva de dias, numa bela manhã, iria aparecer um sol radioso. Mesmo assim as águas do rio continuavam a subir até estacionarem por dois ou três dias. Havia de seguir-se o seu abaixamento, normalmente com muita lentidão, que deixava nas paredes e muros uma linha horizontal castanha que marcava a máxima altura daquela cheia.

 

Atingida a normalidade no rio ficava visível ao longe, uma extensão muito grande toda coberta por uma espessa camada de lama. Esse lamaçal, com o tempo, irá ficar transformado num infinito conjunto de polígonos originados pela lama que gretava ao secar. Futuras chuvadas acabarão por proceder à lavagem e transporte para o rio de grande parte deste precioso composto. O que ainda fica na terra é um óptimo fertilizante.

 

Com a chegada do sol abre-se um novo ciclo de vida e um aumento do frio. Instintivamente vamos buscar mais uma manta para a cama. De manhã quando se chega à janela para espreitar o dia ficamos deslumbrados. Os telhados do casario à volta estão todos brancos. Ao sair de casa a aragem matinal é fria e deixa o nariz e as orelhas gelados. A vida não pára e toda a gente anda em movimento, até os "catraios" de sacola às costas lá ia para a escola. Pelos caminhos de terra batida ou simples carreiros, sem pararem e com botas cardadas. Lá iam partindo a água gelada das poças. À noite, dentro de casa, toda a gente se aquecia à lareira. Lenha era aquilo que não faltava.

 

Os trabalhadores, não residentes, deitavam-se nas camas das camaratas para se aquecerem, enquanto deixavam ao lume da cozinha, toda a noite, a roupa molhada pelos dias chuvosos. No dia seguinte era preciso levantar cedo e a roupa para vestir tinha que ser a mesma.

No final do dia, os outros trabalhadores das redondezas lá iam a pé até casa, não sem que a noite lhes caísse no caminho. Aqueles que pernoitavam no dormitório (poucos e de mais longe), também dispunham de uma cozinha geral. Uma mesa comprida e uns bancos corridos e o lume a queimar lenha. era tudo o que tinham.

  

Todos se apressavam a pôr ao lume o seu pote de barro com três pés. Estavam pretos de tanto ir ao fogo. Depois, iam vagueando entre um banco e a chaminé, espreitando se os poucos feijões já se podiam comer. De vez em quando tiravam dos alforges pendurados na parede, um estreito tubo de vidro com azeite, e deitavam no pote umas poucas gotas. Mexiam o magro sustento com colheres de pau, após o que provavam. Voltavam a tirar dos alforges uma colher muito gasta e segurando a cabeça com uma mão lá iam comendo com a outra.

Quase não falavam. Quando acabavam seguravam a cabeça com as duas mãos e ficavam imóveis até se irem deitar. Talvez estivessem a pensar na vida e na família que estava longe. Mais tarde lá iam nos seus tamancos feitos de madeira até ao dormitório.

 

Com mais ou menos cheias, eram assim os invernos na Cardiga para os trabalhadores rurais.

 

Com os borbotes pequenos e verdes a rebentarem nos ramos das árvores, percebia-se que estava a chegar a primavera. Na terra, o rebentar das ervas e plantas fazia levantar a camada de lodo que as cheias lá deixavam. Ouviam-se os pardais nos telhados e outros vão beber água nas poças mais teimosas. Mais tarde andarão entretidos a fazer o ninho.

 

As extensas vinhas das terras mais baixas, saem das cheias cobertas de uma fina camada de lama.

 

As embarcações protegidas durante o inverno nas águas calmas da ribeira, voltam ao seu lugar no porto fluvial. Esta estação do ano é na quinta um crescendo de vida! As canas e os salgueiros empertigam-se e ficam viçosos de verde. Não tarda que os trabalhadores se apurem na poda das árvores e vinhedos. Manadas de bois puxavam os arados na preparação das sementeiras, enquanto atrás as alvéolas de pernas "finitas" e cauda comprida, depenicavam os vermes trazidos à superfície. As trepadeiras que cobriam as extensas paredes do palácio não tardarão a florir. No verão serão o esconderijo e dormitório da passarada.

 

O palácio é considerado património nacional e a sua construção remonta a tempos desconhecidos. O mesmo acontece com o castelo. Lendas antigas relacionam-nos ao Almourol, Templários e Convento de Cristo. Incorporada no palácio existe uma linda capela com ricos vitrais. Entre um dos lados do palácio e o rio ficava um lindo jardim e ao lado deste uma estufa com plantas exóticas.

 

A Páscoa era o ponto alto da primavera. Todas as famílias vestiam a sua roupa melhor e iam à missa na capela, que se enchia. Os donos conviviam com todos os trabalhadores e participavam com as crianças na festa da procura dos ovos de Páscoa escondidos nos arbustos da horta. Havia ovos de todas as cores.

Aproveitando o labirinto existente, faziam-se jogos e distribuíam-se prendas pelas crianças presentes. Nos campos já tudo era verdura e floria. Papoilas e malmequeres brancos e amarelos eram a perder de vista! As roseiras enroladas às muitas árvores da avenida de entrada e landoeiros, transmitiam-lhe um colorido vistoso e alegre!    

Aos poucos, as águas do rio deixavam de ser barrentas e tornavam-se límpidas. A sua torrente arrastava as ramagens dos salgueiros que assentavam na água. Adeptos da pesca à linha vinham das terras vizinhas. Existiam também os outros, quase profissionais, que com os seus barcos pretos em forma de meia-lua percorriam o Tejo estendendo as suas redes.

Outros aprestos como os “covos”, “tarrafas” etc. ajudavam os pescadores a ganhar a vida. O peixe assim recolhido era vendido nas terras ribeirinhas que não eram abrangidas pela venda de peixe do alto mar. Algum tempo depois outro evento anual fazia acorrer à Cardiga muita gente das redondezas. Falo da 5ª Feira da Ascensão ou “dia da espiga”. Vendedores ambulantes apareciam manhã cedo e montavam as suas bancas. Vendiam refrescos, pevides, tremoços, sanduíches, bolos etc. Outras pessoas vendiam os típicos ramos deste dia, chamados de “espiga”. No rio fragatas enfeitadas passeavam as pessoas, a troco de quase nada. Todos entoavam cantigas populares.

 

Tudo isto ao longo dos anos haveria de conquistar o coração das populações das redondezas que, de facto, nutriam grande simpatia e respeito por esta Quinta da Cardiga, sabiamente gerida durante séculos pelos Cavaleiros do Templo e da Ordem de Cristo. Socialmente e numa época em que nenhuns direitos havia para aqueles que trabalhavam na vida do campo, tinham eles deixado a semente do respeito pelos outros, que induziria os futuros e mais significativos donos da Quinta, a fornecerem assistência médica, colónia de férias etc., e outros cuidados sociais, até aí inexistentes no Portugal de então.

 

Por esta altura da 5ª. Feira da Ascensão já se podiam comer alguns frutos maduros. As searas tinham a cor amarela da sua perfeita maturação. As hortas tinham de tudo, pois a natureza era pródiga, ajudada pela qualidade das terras e pela abundância de água para rega. Ao cair da noite esvoaçavam morcegos por todo o lado e nas noites quentes do fim de Maio as crianças corriam atrás dos pirilampos que em ziguezagues se escapavam pelos ares.

O potente sino que se fazia ouvir em toda a quinta, badalava agora mais cedo e mais tarde, era a hora de verão. O sino marcava há anos o inicio e o fim da jornada de trabalho diário e também no rebate a fogos. No pino do sol, no verão, passava a tocar quatro vezes ao dia em consequência do calor e da necessária “sesta”.

 

O andar pachorrento dos carros de bois carregados de cereais indiciava o começo desse verão. Os boieiros, também eles pachorrentos, talvez por contágio, com o aguilhão e a espaços, picavam os animais com algum comprometimento. O trabalho da ceifa era feito por homens afogueados pelo calor intenso.

 

Era este o tempo das violentas trovoadas. Por vezes mais que uma por dia ou em simultâneo e provenientes de lados opostos. Os raios iluminavam o céu que antes se tinha tornado escuro. Por antecipação um homem, sempre atento, molhava o chão onde os pára-raios ligavam à terra.

 

Os santos populares eram também motivo para festejar em conjunto com os vizinhos e amigos. Lenha não faltava e alegria também não. As alcachofras estavam mesmo à mão. Com mais ou menos jeito todos saltavam à fogueira.

 

O verão já se fazia sentir e nos dias que se seguiam a fogueira era outra e chamava-se eira. Homens de chapéu preto na cabeça e lenço vermelho no pescoço alimentavam sem cessar aquelas grandes máquinas que separavam as sementes para um lado e a palha para outro. Dava prazer ver os fardos tão bem atados e moldados. Levar os sacos de cereais e os fardos era trabalho novamente destinado aos bois e às enormes mulas. O celeiro e os palheiros irão ficar cheios para mais um ano.

 

Na Cardiga tudo era aproveitado no estrito rigor dos ensinamentos colhidos e melhorados durante várias gerações. O ciclo económico tem regras a cumprir. A abundância de água permitia manter, através da rega, a alimentação de alguns animais bem viçosa. Nas condutas de rega, cheias de musgo, corria água muito limpa por todo o lado.

 

Menos que nas redondezas, o calor era imenso. Sufocante!          

 

O verão ia acabando e dando origem ao Outono com a azáfama das vindimas. Novamente os carros passavam pachorrentos transportando uvas brancas e pretas. Eram dias e dias com o mesmo ritual.

Na adega o trabalho era igualmente intenso até á fermentação completa do mosto. Depois, eram as provas e envasilhamento do precioso liquido. O vinho da Cardiga era consumido e apreciado por todo o país, sempre rotulado com a Cruz de Cristo.

 

Sem se dar por isso já estávamos no Outono. O sentido decrescente que nos transmite esta estação,  dá-nos alguma sensação de menos alegria ou mesmo de alguma tristeza, são os motivos aparentes, outros poderão existir.

É certo que esta estação tem muito de verão e muito de inverno. De si própria tem o antipático cair da folha, os dias mais pequenos, a chuva, e o frio que vai chegando. A Quinta era invadida por ranchos de homens e mulheres vindos das Beiras para a apanha da azeitona, uma importante tarefa sazonal que punha de novo os carros a transportar toneladas de azeitonas para o lagar. Laborava por vários meses de dia e de noite. O azeite produzido era de muito boa qualidade, com consumo garantido.

 

Com a chegada da primavera tudo recomeçava...  .

 

As Relações Humanas

                   

As relações humanas vividas na “Quinta da Cardiga” eram seguramente diferentes de qualquer outra realidade. O relacionamento entre a já larga família proprietária da Quinta e os trabalhadores e suas famílias, era não só de respeito mútuo, mas também de estima e saudável entreajuda. A palavra solidariedade tinha aqui perfeita aplicação. Em situações difíceis, ou mais complicadas, os donos da Quinta davam o seu apoio a qualquer pessoa. No sentida inverso os moradores sentiam, como seu, todo e qualquer infortúnio que atingisse a família que lhes assegurava emprego e apoio social e humano.

 

A figura do “ Feitor ” no desempenho das suas funções emanava calma, serenidade e respeito. Normalmente eram homens de poucas falas, menos risos, mas credores da simpatia de todos os meios sociais envolventes e de todos que na Quinta ganhavam o seu sustento. Contando com as famílias a comunidade residente rondaria o meio milhar de pessoas. Alguns empregados, os que assumiam maiores responsabilidades, vivam junto ao palácio. Umas doze famílias. Os outros, com emprego fixo, viviam num lugar muito próximo chamado de São Caetano.

 

A grande força de trabalho era, de algum modo, flutuante e residia nas aldeias e lugarejos das redondezas. Ninguém recorda conflitos ou grande azedume entre os habituais moradores na Quinta ou mesmo no lugar de São Caetano.

Problemas graves de saúde, ou mesmo falecimentos, eram casos que só de muito em muito longe aconteciam, mas que todos sentiam como seus. Neste lugar não podia haver indiferença, a solidariedade estava sempre presente. O contacto com a natureza incutia em toda a gente franqueza , lealdade e um forte sentimento de respeito para com o próximo .

 

Na escola da Quinta os alunos eram poucos e a brincadeira dos recreios fazia-se na estrada e nos olivais em redor. O exame ou a prova, como na altura se dizia, tinha que ser feita na Sede de Concelho que ficava a uns cinco quilómetros de distância. Para o efeito a Quinta punha à disposição um carro puxado a cavalos. Nele seguiam a professora e os alunos.

Muito poucas eram as crianças que podiam continuar para além da 4ª. Classe, como de resto acontecia por todo o país.

 

O Orgulho numa História

 

Decerto que não existiram em Portugal muitas quintas que se possam orgulhar de ter uma história tão completa, tão interessante, e sobretudo ininterrupta, ao longo da vida do nosso país.

A Quinta da Cardiga, situada no coração do Ribatejo, talvez vinda da pré-história atravessou a Monarquia, sobreviveu ao Liberalismo, passou pela República, ultrapassou o 25 de Abril de 1974 e embora combalida com o aumento dos custos laborais, continuou de pé. 

Se analisarmos a Quinta no tempo que decorreu, podemos rebuscar as origens do seu nome (do latim CARDICA, talvez lugar onde abundam cardos) e dos seus primeiros habitantes e traçar as etapas por que passou esta Quinta ao longo de muitos séculos, ao longo dos vários reinados, e até durante várias gerações de algumas famílias que a possuíram, sempre que tal foi possível.

 

No espaço, procurando estabelecer uma ligação entre os homens que habitaram esta quinta e as suas marcas deixadas no terreno; quer construções, quer culturas agrícolas, algumas das quais, como é o caso da vinha, dos cereais e da oliveira, que ainda chegaram aos nossos dias.

Por força da Revolução Liberal ocorrida em Portugal em 1820, logo em 1834- Joaquim António de Aguiar decreta a extinção das ordens religiosas e a nacionalização das suas casas e bens. Inicia-se a venda em "hasta pública" dos bens nacionais e em 1836- A Quinta da Cardiga é arrematada na Junta da Crédito Público por Domingos José de Almeida Lima.

Em 1867- Os Herdeiros da família Lima vendem a D.Maria Arrábida Lamas, a Quinta da Cardiga .

Em 1898- Os Herdeiros de D.Maria Arrábida Lamas vendem a Quinta da Cardiga a Luís Adolfo de Oliveira Von Sommer (descendente do anterior Luís Sommer que em 1831- veio da Alemanha, para servir como alferes no Regimento de Lanceiros da Rainha).

Em 1929- Morre Luís Adolfo de Oliveira Von Sommer. Os seus familiares continuam a exploração da propriedade.

Na entrada do século XX - A Quinta da Cardiga, uma das mais importantes do Ribatejo, continuava na posse dos descendentes de Luís Sommer. Ainda dobrou a primeira metade deste século!

 

Mas da última vez que visitei a Cardiga ela estava quase irreconhecível. Não tinha gente, estava abandonada e desprezada. Não havia flores, carros de bois a passar, jovens a caminho do rio Tejo!

Recordo-mede muita gente boa que dedicou toda a sua vida àquela Quinta e que já não vivem, mas sei, queonde estiverem continuam com a Cardiga no coração que já não bate! Só podem pairar, por cima daqueles mil anos de história, contemplando as paredes dos palheiros, lagares, vacarias e do palácio sempre imponente, num estado decadente e lastimoso.

 

Só o castelo ainda parece um soldado em sentido!

 

Falando das etapas deste lugar de orgulho e monumento do imaginário nacional, que ninguém sabe quando veio ao mundo, mas que foi muito antes da formação de Portugal, podemos marcar-lhe como influências e períodos de evidência na sua longa existência a era dos Templários, logo seguida da era da Ordem de Cristo e por último os seus actuais e mais marcantes proprietários, ou seja, a família Sommer que tão bem souberam continuar o trabalho das Ordens atrás referidas. Resistiu a tudo e só sucumbiu com a entrada de Portugal na União Europeia. Ainda terá recebido, como tantos outros proprietários, subsídios de Bruxelas. Mas como tantos outros não os terá investido em mais produção com melhor qualidade e menos custos. Por esta ou outras razões, o País preferiu importar do estrangeiro tudo o que consumia! Dizia-se que era mais barato, até o trigo dos EUA! Mas os políticos e produtores esqueceram-se de a tal diferença lhe somar os subsídios de desemprego que Portugal começou a pagar por muitos milhares de desempregados de todas as idades! Assim, a quinta que tudo produzia em agrícultura e pecuária e tanto enriquecia o País, está hoje em ruínas e desabitada e o orgulho nacional para lá caminha!

 

 

 

 

publicado por luzdequeijas às 18:32
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De Laura Marques a 15 de Maio de 2014 às 18:06
Boa Tarde,
Estive a ler o artigo e está muito bom, só tenho uma recomendação, os azulejos não são somente do séc. XVII e XVIII, existindo também do séc. XX da autoria de Pereira Cão, nomeadamente os da capela e do pátio de honra, de quando a casa era propriedade de Luís Oliveira de Adolfo Sommer.
Gostaria, também, de saber se possui mais fotografias da quinta, nomeadamente dos azulejos.

Agradeço desde já, cumprimentos.


De luzdequeijas a 17 de Maio de 2014 às 21:13
Boa tarde
Sobre as perguntas que me fez nada posso dizer, pois, saí da quinta ao 14 anos, década de 50, para não mais voltar. Todavia é impossível esquecer os dias que lá vivi.
Lamento o estado em que se encontra, mas para tal muito contribuiu o 25 de Abril, a desordem e o fracasso financeiro consequente.
CUMPRIMENTOS - REIS LUZ


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