Terça-feira, 6 de Setembro de 2011

QUEIJAS - LUGAR

Era um dos planaltos cerealíferos, em especial terrenos de trigo de Oeiras, que alimentaram tanto as legiões romanas, como mouros e cristãos.

Situada a uns cinco quilómetros da entrada da nossa capital, fica localizada em local soalheiro e ventoso, entre Carnaxide, Caxias, Barcarena, Valejas, Serra de Carnaxide, a CREL e A5 e o território do Estádio Nacional.

A toda esta zona de altitude acentuada, se chamou em tempos mais remotos, a Serra de S. Miguel.

Queijas antigamente, pela sua reduzida dimensão, na altura teria trinta e poucos habitantes, não terá tido muitos estragos no ano de 1755 com o terrível terramoto acontecido, ao contrário das localidades vizinhas, principalmente Carnaxide.

Durante muitos anos, mais não existia neste lugar do que uns sessenta fogos, aos quais se conseguia chegar pela estrada das Várzeas e pelas ruas da Quinta do Bonfim, da Fonte, da Telha e do Lameiro.

Queijas como todos os lugares da freguesia, no ano de 1833, foram vítimas de um terrível flagelo que muito prejudicou a vida normal das pessoas. Na verdade, a epidemia de cólera e febre amarela atingiu duramente a população deste lugar, causando inúmeras vítimas. Mesmo assim, muita gente terá até fugido de Lisboa para Queijas e Linda- a - Pastora, na esperança de que a sua altitude e bons ares os protegessem.

Porém, também elas viram, estranhamente, a morte levar lados inteiros das ruas deixando os outros lados incólumes, mas logo voltava atrás para acabar a sua mórbida missão.

A orfandade e a viuvez foi terrível, não havendo braços para sepultar tanta gente. Os campos iriam ficar por cultivar, as casas abandonadas, pois o ânimo faltava e os braços para trabalhar também !

A vida aos poucos foi tomando a sua normalidade e em pleno século XIX, toda a freguesia de Carnaxide foi "assaltada" por gente endinheirada, empresários, quadros do funcionalismo público, políticos e nobres dominantes, procurando nesta região, casas de aldeia ou mesmo quintas, para mudança de ares ou simples veraneio.

Em Queijas ficaram desse tempo bonitas quintas como a da "Senhora Alemã", ou a conhecida Quinta da Fonte da Telha.

 

Topónimo

Consta que serão quatro as possíveis explicações e bastante diferentes umas das outras.

Tendo a primeira a ver com o facto da existência de muito campo neste local, que era aproveitado para a pastorícia, daí que do leite de ovelha se fizesse um queijo tão bom, que, conta a tradição, o próprio rei D. Miguel se deslocava a esta região  para o vir comer.

A segunda deriva da palavra "Quêjas", que era o nome atribuído aos excrementos das ovelhas. Daqui terá vindo a palavra, diz-se.

Seguindo a contagem, a terceira explicação relaciona Queijas com a palavra "Queiras". Conforme a tradição, existia nesse local uma prisão, que originou a expressão popular, "Quer queiras, ou não queiras, vais parar a Queijas".

Com o decorrer dos anos, Queiras ter-se-ia transformado em Queijas.

Finalmente, a quarta provém do castelhano ou do Espanhol como se diz mais vulgarmente. Assim, em castelhano, os substantivos comuns "quexigo, caxigo, e cassigo", referem-se a uma espécie de carvalho. Ora, esta árvore, geralmente, cresce em serras, montes e zonas pedregosas. Como Queijas se situa num local elevado, e tinha esta características, é possível que o nome venha daí.

 

Um olhar sobre a parte histórica -

"O arrolamento paroquial do ano de 1865 e as palavras do Padre Francisco Figueira referem para o lugar de Queijas uma população de 148 habitantes, 35 fogos, e situada, como ele descreve no seu livro sobre a freguesia de Carnaxide, com o título " Os primeiros Trabalhos Literários" editado em 1865 :

 

" meio quilometro ao noroeste de Linda a Pastora, assente n' um platô mui fertil. É logar tão antigo que era elle que, com o parocho, antigamente, festejava o orago de S. Romão. Teve outr'ora uma ermida dedicada a S. Joaquim."

Povoado rural e semelhante a outras povoações ao seu redor , Queijas teve certamente origem muito antiga, contudo escasseiam as referências históricas.
Que não seja a insuficiência de fontes documentais e de investigação histórica que minimize o valor ou o lugar patrimonial que Queijas ocupa no concelho de Oeiras.
Povoação de terras férteis, ligada à agricultura e ao cultivo de cereais, de pequenas propriedades popularmente conhecidas pelo seus artigos cadastrais tais como a terra das várzeas, da manga, dos cerejos da carambola, do adufe, dos enxofrais etc. , Queijas foi lugar da freguesia de Carnaxide.
Digno de nota , é o património edificado que tão bem ilustra o passado e a actividade de Queijas e de Linda a Pastora. São exemplos a casa de D. Miguel (Queijas), a Casa de Cesáreo Verde e a capela de S. João Baptista (em Linda - a - Pastora) e o Santuário da Senhora da Rocha.

 

A sua proximidade com o mar, as características do solo, a sua localização e clima, são factores que tornaram Queijas um local propício à ocupação humana desde a pré-história.

Os solos basálticos desta freguesia, pertencentes ao Complexo Basáltico de Lisboa, desde sempre muito férteis, favorecem, ainda, a retenção da água, em toalhas pouco profundas, mercê das suas condições geológicas.

Estes factores, juntamente com um relevo pouco acidentado, proporcionaram este lugar como local de ocupação humana, tendo sido aqui encontrados vários achados arqueológicos, datando os mais antigos do Paleolítico Inferior. A localidade de Linda- a- Pastora constitui mesmo uma das estações mais importantes da região de Oeiras; pertencentes ao Complexo Basáltico de Lisboa.

Os três factores apresentados justificariam, deste modo, a abundância de caça, bem como a prática da produção de culturas cerealíferas. De facto, esta última actividade manteve-se até aos inícios do século XX, sendo, ainda hoje, visíveis cerca de uma dezena de moinhos dispersos pelo lugar de Queijas.

Para além destes aspectos, foram ainda encontrados em Queijas alguns vestígios de antigas civilizações, nomeadamente, da Idade do Bronze e do Ferro.

 

Chegados ao ano de 1865 a população de Queijas apresenta apenas 148 habitantes, enquanto Linda- a - Pastora já tinha 403.

Em Queijas a maioria da população masculina dedicava-se à lavoura e à pastorícia. As mulheres desempenhavam actividades tipicamente femininas, sendo a grande maioria lavadeiras.

Os homens ocupavam-se do comércio, agricultura e de alguma indústria, desempenhando ocupações de lavradores, trabalhadores rurais, pastores, taberneiros, moleiros etc.

A maior parte dos homens dedicavam-se à actividade agrícola.

Para além das ruas já referidas, havia caminhos, ruelas, calçadas, escadinhas, largos e pátios.

A par disso, havia neste lugar, vastos campos de sementeiras, por entre os quais haviam sido rasgados estreitas veredas que davam acesso aos moinhos, que em terra de vento eram reis.

 

Currais, abegoarias, pequenos armazéns de alfaias, terreiros e principalmente muitas eiras, eram coisas fáceis de encontrar em Queijas.

O abastecimento de água era assegurado por várias minas, a partir das quais se tinha acesso ao vasto lençol de água existente por baixo de todo este planalto.

 

Na Rua da Mina ainda se pode ver hoje o tanque das lavadeiras de Queijas, ou outro onde os animais matavam a sede.

De entre as profissões menos exercidas encontrava-se a pecuária. Contudo esta actividade depressa se desenvolveu e Queijas passou, não só a produzir queijo de alta qualidade, mas também a fazer o abastecimento de leite em algumas localidades circundantes, como, por exemplo, na Cruz Quebrada, e no Dafundo.

De qualquer forma, Queijas chegou a meados do século XX, como um lugar com duas dezenas de modestas casas em redor da Casa de D. Miguel.

Quanto à Saúde Pública, tanto em Queijas como Linda-a - Pastora, não vivia um único médico.

Os Moinhos - Pensa-se que os primeiros moinhos de vento foram construídos na Pérsia e o seu sistema mais tarde aproveitado pelos árabes.

Foram então trazidos para a Europa pelos cruzados que tomaram conhecimento da sua existência aquando das suas viagens pelo Oriente e pouco a pouco, o moinho foi sofrendo alterações que variam de região para região consoante as características geográficas e culturais de cada povo.

Nos séculos XI a XIII este tipo de construção propagou-se pelo velho continente.

 

Em Portugal, os primeiros dados históricos remontam ao século XIV, sendo um dos países europeus onde mais se regista a sua existência.

Feitos de pedra, cal e madeira, os moinhos são também uma presença forte na paisagem da nossa freguesia.

 

       

C:\Users\User\Desktop\8.jpg

 

 

 

Moinho com marco geodésico

 

Actualmente o estado da maioria destes nossos históricos imóveis encontra-se muito degradado, mas, felizmente, já temos alguns recuperados.

Há, assim, uma tendência de inversão nesta situação, julgo até que o moinho mais próximo da Escola Professor Noronha Feio, que encerra um marco geodésico no seu interior e está situado numa elevação rodeada ainda da vegetação típica desta área, bem poderia ser recuperado e destinado a uma última reserva de várias espécies, quase em extinção numa freguesia, que foi tão rica em caça.

Desde lebres e coelhos bravos, ouriços, perdizes, codornizes etc. que fizeram as delícias dos caçadores vindos de todos os lados, incluindo o rei D. Miguel, aqui poderiam viver no seu normal habitat e serem visitados pelos alunos das escolas da freguesia e da região.

Reconstruído na sua velha dignidade, permitiria que este espaço actualmente pertença da CMO, pudesse levar as gerações de hoje a uma viagem ao passado perdido da sua terra.

Para as tarefas de recuperação são necessários conhecimentos de "molinologia", para que de uma forma consciente, não se destrua um património com centenas de anos.

Nesse sentido, é forçosa fazer-se o levantamento arquitectónico de cada moinho e das suas fazes de construção, para que a sua traça original se mantenha. 

Todo o trabalho de reconstrução pode levar um ou dois anos a fazer e os seus custos ascenderem a muitos milhares de euros.

Aqueles que Queijas já tem reconstruídos, por vontade dos seus proprietários, têm finalidades diversas sendo um deles o " Moinho D' El Rei", que está a funcionar como habitação.

Outros poderão ter projectos integrados de desenvolvimento regional, ligados à recuperação da paisagem tradicional, à criação/reconversão de emprego  ( como restaurantes etc.) e à criação de instrumentos de apoio pedagógico para a comunidade escolar e famílias, como atrás se refere.

Nunca D. Quixote poderia adivinhar, os preços e a procura que os moinhos de vento viriam a atingir. Mais caros que as próprias casas de habitação!

Os nossos, mesmo que possam vir a funcionar para outras finalidades, lembrar-nos-ão sempre os cereais que a nossa terra produzia e os produtos de moagem que, em conjunto com a panificação, foram sempre actividades de grande expressão na vida rural de Queijas.

Neste velho lugar cimeiro, vinha predominando o pequeno e médio comércio, alguns serviços e algumas pequenas unidades industriais.

Aqui se situavam por exemplo uma unidade de fabrico de sinais de trânsito com alguns operários, a Tunális com doze a quinze operários na construção de  barcos pequenos, naturalmente mais para desporto, a Escodel de trabalhos de ferro com duas dúzias de operários e sobretudo a Tornearia de Metais - ou Fábrica dos Parafusos, na qual trabalhavam aproximadamente 500 pessoas, entre homens e mulheres.

publicado por luzdequeijas às 15:06
link do post | comentar | favorito
4 comentários:
De RBO a 16 de Março de 2012 às 16:54
texto muito interessante!

Quanto à toponímia, creio que a segunda tese terá mais sustentabilidade. Queijas era mesmo conhecida na zona por "terra da caganita", ainda não há muito anos.

Cumprimentos,

rbo.


De C. Lins a 12 de Setembro de 2014 às 12:07
Sou nativa de Queijas e o meu penta-avô já aqui morava quando casou com uma jovem de Barcarena por volta de 1750. A partir daí somos todos naturais de Queijas. Ainda consigo localizar de memória os cerca de 35 fogos. Gostaria de contactar a associação e trocar ideias.


De paulo a 15 de Agosto de 2017 às 16:28
morei em queijas desde 1975 em casa dos meus avós maternos , que habitavam na casa d.Miguel , tinha uns azulejos incriveis ! velhos tempos.


De Celeste Carrasco a 21 de Agosto de 2017 às 14:34
Vivo em queijas há uns 22 anos. Confesso que nessa altura fiquei deprimida por não ter transportes com regularidade. Agora amo Queijas e quem cá habita, moradores antigos ou recentes são todos boa gente,
Está terra tem um blog de luz e tem boa energia. Adorei a publicação.


Comentar post

.Fevereiro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28


.posts recentes

. O CONCEITO DE SERVIÇO PÚB...

. MUDAR SÓ POR MUDAR.

. CENTRO DE DIA DE QUEIJAS

. ALMOÇO MUITO INDIGESTO

. FUMO BRANCO E NEGRO

. ENDIVIDAMENTO PÚBLICO E P...

. A POLÍTICA COR-DE -ROSA

. OS QUATRO IMPÉRIOS

. O ASSOCIATIVISMO

. DOUTOR DA MULA RUÇA

. A CLASSE MAIS CASTIGADA

. AS VITIMAS DA CIGARRA

. O NOSSO ENTARDECER

. A SACRALIDADE DA PESSOA H...

. SABER TUDO ACERCA DE NADA

. A NOSSA FORCA

. A MORTE ECONÓMICA

. GERAÇÃO DE OURO

. OS TEMPOS ESTÃO A MUDAR

. SEDES DE RENOVAÇÂO “

. 200 000

. DO PÂNTANO A SÓCRATES

. O ESTADO PATRÃO

. A MENTIRA

. O SILÊNCIO DOS BONS

. ARMAR AO PINGARELHO

. ENSINO À DISTÂNCIA

. A CIÊNCIA DO BEIJO

. A VERDADE PODE SER DOLORO...

. COSTA V.S MERKEL

. PROTEGER O FUTURO

. RIQUEZA LINCUÍSTICA

. A MÃO NO SACO

. DOUTRINA SOCIAL CRISTÃ

. GRANDE SOFRIMENTO

. IMAGINEM

. LIBERDADE COM SEGURANÇA

. COSTA CANDIDATO

. DEBATES PARTIDÁRIOS NA TV

. NA PÁTRIA DO ÓDIO

. PORTUGAL, UM PAÍS DO ABSU...

. NÓS, NÃO “PODEMOS”

. CIVILIZAÇÃO Pré-histórica...

. AS REGRAS DA VIDA REAL

. UMA SAUDÁVEL "LOUCURA"

. UMA SOCIEDADE SEM "EXTRAV...

. O MUNDO DOS ANIMAIS

. A CRISE NO OCIDENTE

. O POVOADO PRÉ-HISTÓRICO D...

. AS INTRIGAS NO BURGO (Vil...

.arquivos

. Fevereiro 2018

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Março 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

.favorito

. MANHOSICES COM POLVO, POT...

. " Tragédia Indescritível"

. Sejamos Gratos

. OS NOSSOS IDOSOS

. CRISTO NO SOFRIMENTO

. NOTA PRÉVIA DE UM LIVRO Q...

. SEMPRE A PIOR

. MEDINDO RIQUEZAS

. A LÁGRIMA FÁCIL

. LIÇÕES PARA QUÊ?

.mais sobre mim

.pesquisar

 
blogs SAPO

.subscrever feeds