Sábado, 19 de Junho de 2010

NADA DISTO ABONA O GES

Quem manda em Portugal?

Em Maio a Revista Única, que integra este jornal onde escrevo, elegeu os mais poderosos de Portugal. Um painel constituído por 17 personalidades da sociedade portuguesa não teve dúvidas. Ricardo Salgado, presidente do Banco Espírito Santo, é o homem com mais poder neste país, destronando Belmiro de Azevedo, presidente da Sonae, que ficou em segundo lugar.

Na lista dos dez primeiros, o primeiro-ministro aparece em terceiro lugar e o Presidente da República em sexto. O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, ficou num modesto último lugar deste pelotão. Nos dez da frente estão ainda três empresários (Pinto Balsemão, Soares dos Santos e Américo Amorim), um comentador (Marcelo Rebelo de Sousa), o presidente do FC Porto e Rui Vilar, presidente da Gulbenkian.

Este exercício vale o que vale, ou seja, dá-nos apenas uma indicação sobre a forma como o poder em Portugal é percepcionado por 17 influentes personalidades. Mas, mesmo assim, não deixa de ser um exercício sobre o qual vale a pena reflectir. Principalmente porque há muita gente a comungar da ideia de que o sector financeiro manda neste país.

Na realidade essa ideia resulta de uma evidência. O sector produtivo tem vindo a perder para o sector financeiro, a indústria definha e a banca cresce, os banqueiros tomam o palco enquanto os empresários perdem protagonismo. A economia portuguesa vive a crédito e o crédito é o negócio dos bancos. Acresce que a banca em Portugal, e em especial o BES, é muito mais do que a actividade financeira. Cruza interesses em empresas, sobretudo as grandes empresas colocadas na órbita pública, envolve-se com o Estado nos chamados 'grandes projectos' e afirma uma indisfarçada capacidade de influência nas decisões políticas.

Na hierarquia do poder económico (chamemos-lhe assim para facilitar) é hoje claro que o poder financeiro prevalece sobre os restantes sectores. Mas, mais extraordinário, é a percepção de que ele pode ter mais poder do que o próprio poder político.

Estamos a falar, como é óbvio, de um poder baseado não no poder formal que resulta do controlo dos instrumentos tradicionais de poder (poder de coerção), mas de outros instrumentos, entre os quais estão o dinheiro e a influência.

Seja verdadeira ou apenas percepcionada, esta realidade mostra um desequilíbrio preocupante na hierarquia do poder em Portugal. É suposto que o poder político prevaleça sobre os outros poderes. Desde logo porque é eleito, depois porque deve defender o interesses de todos e não apenas de um sector, económico ou social.

Mas indicia outra coisa ainda mais preocupante, a saber, que o poder político permitiu de forma activa ou passiva, ou seja, por culpa própria, que aos olhos de muitos portugueses os interesses de alguns sectores ou grupos se sobreponham ao bem comum que é suposto a política defender.

Mais perigosa, mas igualmente verdadeira, é a sensação de que o poder político, pelo menos uma parte, vive à sombra do poder financeiro, deslumbrado pela luz que dele emana.

l.s.marques@sapo.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Junho de 2010

 

publicado por luzdequeijas às 15:41
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